Joelho: a articulação que

merece atenção especial

 

A escolha do tema se deve às inúmeras dúvidas que as pessoas possuem a respeito de como preservar a articulação do joelho, que é tão acometida na prática desportiva e também para esclarecer o funcionamento da mesma através do que existe actualmente na literatura médica e fisioterapeuta, para reduzir as especulações e procedimentos inadequados.

 

 

 

O joelho é possivelmente a articulação que mais sofre no aparelho locomotor nos praticantes de actividade física. Realiza a função de "dobradiça", que regula a altura do tronco em relação ao solo, necessitando para isso de muita mobilidade. Por outro lado sua posição intermediária entre os dois ossos mais longos do corpo humano (fémur e tíbia), ou seja, duas alavancas que impõem sobre a articulação resultantes de forças muito grandes, implica na necessidade de enorme estabilidade. Estas duas funções são contraditórias em termos de biomecânica, pois quanto maior for a mobilidade, menor será a estabilidade e vice-versa, sendo isso válido para qualquer articulação do corpo humano. Devido a este facto, o joelho possui estruturas de alto grau de complexidade anatómica e funcional, tornando o seu estudo fascinante.

 

A intenção deste artigo não é fazer uma descrição anatómica e funcional, mas abordar os aspectos práticos que o leitor pode utilizar no quotidiano da sua prática desportiva.

 

Começando pela estabilidade, existem duas subdivisões principais: a estabilidade estática, dada principalmente pelos ligamentos, e a estabilidade dinâmica dada pelos músculos. Numa situação de normalidade, há uma harmonia no desempenho de ambas funções, onde ligamentos e músculos dividem forças.

 

Já em 1954, um autor americano chamado De Palma, citava no seu livro sobre patologias do joelho que, nos casos de lesão ligamentar, se a musculatura relacionada ao joelho estiver em condições funcionais adequadas, não ocorre aumento do grau de instabilidade articular. Esta afirmação não é válida para 100 % dos casos de lesão ligamentar do joelho, pois através dos estudos mais recentes, sabe-se que existem indivíduos que possuem função ligamentar predominante e são chamados de ligamento-dependentes e existem indivíduos que possuem a função muscular predominante e são chamados de músculo-dependentes. Estas teorias justificam porque existem pessoas que convivem com lesão ligamentar no joelho mesmo sem realizar cirurgia reparadora. É claro que isto depende também de qual o ligamento lesado e qual o desporto praticado e em que nível.

 

Mas retomando o assunto da associação entre ligamentos e músculos, para preservar a estabilidade do joelho, o mais importante é ter em mente a importância de manter-se a musculatura em boas condições para praticar desportos sem risco de lesões ligamentares. Isto não quer dizer que é necessário ficar numa sala de musculação a levantar pesos e adquirir um quadríceps enorme para garantir a protecção do joelho. Muitas vezes, isto é até prejudicial, principalmente para as lesões do tipo degenerativo.

 

O significado de musculatura adequada não é hipertrofiada e sim funcional, ou seja, ágil e coordenada. Tomando-se por exemplo uma situação de fadiga muscular aos 30 minutos do segundo tempo de uma partida de futebol. Nesse momento, a musculatura passa a ser insuficiente para estabilizar o joelho, pois perde em velocidade de contracção e coordenação. Assim sendo, na ocorrência de um movimento rotacional, como num drible ou um movimento de perda súbita do equilíbrio, como pisar um buraco ou o pé do adversário, se a musculatura não desempenha seu papel de estabilizadora dinâmica, os estabilizadores estáticos (ligamentos) sofrerão uma sobrecarga funcional, que muitas vezes supera a sua capacidade mecânica, causando a lesão.

 

No exemplo acima existem duas providências principais a serem tomadas. A primeira delas é saber a causa da fadiga e a segunda é realizar um trabalho complementar com base nessa análise. A causa pode ser a falta de resistência muscular localizada, encurtamento muscular, desequilíbrio muscular em relação aos demais grupos musculares, inaptidão geral para jogar 90 minutos, entre outras. Uma vez esclarecida a causa, o atleta deve realizar o trabalho complementar e tornar os seus estabilizadores dinâmicos novamente adequados, aliviando a sobrecarga nos estabilizadores estáticos. Cabe lembrar que estes tipos de avaliação e correcção podem ser realizados por um profissional de fisioterapia.

 

O exemplo citado pode ser também aplicado às outras modalidades desportivas, porém a importância da integridade muscular tem um objectivo maior e que ocorre a longo prazo: retardar a degeneração articular. Qualquer distúrbio funcional torna a articulação vulnerável e ela desgasta-se mais rápido.

 

O que são os meniscos?

 

Os meniscos são estruturas compostas de fibrocartilagem, existindo em número de dois dentro de cada joelho e têm diversas funções na articulação.

 

A primeira delas, que justifica seu posicionamento entre os ossos fémur (da coxa) e tíbia (da perna), é a de auxílio na estabilidade articular, ou seja, ajudando os ligamentos. A congruência entre o fémur e a tíbia é muito mau, pois a superfície de contacto entre estes ossos é praticamente de um ponto, sendo um lado convexo e o outro plano. Deste modo é necessária a presença de um coxim para melhorar a co-adaptação óssea e o menisco, com a sua forma semelhante a um gomo de tangerina (porém um pouco arredondado, na forma da letra C), supre esta necessidade. Portanto, os indivíduos que já sofreram a cirurgia nos meniscos, mesmo que por artroscopia, precisam de realizar um trabalho muscular de manutenção, para evitar que o joelho se torne instável e sujeito a outros tipos de lesão. A segunda função dos meniscos é a de amortecedor de impactos, já que este coxim fica entre dois ossos e recebe a carga do peso corporal de cima para baixo, além da reacção do solo de baixo para cima. Deste modo é fácil entender que os indivíduos obesos poderão sofrer lesões degenerativas nos meniscos, pois estarão sendo esmagados entre dois ossos. A terceira função é a de nutrição das cartilagens do joelho. Os meniscos funcionam como esponjas que absorvem e eliminam o líquido lubrificante que existe nas articulações, chamado líquido sinovial. Deste modo, com a movimentação da articulação nas nossas actividades diárias, ocorrem mudanças na pressão interna do joelho. Isso promove a absorção e eliminação do líquido pelos meniscos, fazendo-o circular por toda a articulação, nutrindo a cartilagem articular.

Portanto os meniscos têm uma função mais abrangente que é a soma das três citadas acima: preservar a cartilagem articular. Com isso irão impedir que ela se degenere rapidamente, levando ao que se conhece por artrose.

 

Alguns cuidados nos exercícios podem ajudar a preservar os meniscos, mesmo os de quem nunca operou o joelho. Por exemplo, os movimentos de giro sobre uma das pernas devem ser realizados com leveza e com apoio do peso no ante-pé (parte do pé mais próxima dos dedos). Caso isso não ocorra, o pé fica travado no chão e o corpo continua o giro, lesionando o joelho, e lesando os meniscos e muitas vezes ligamentos. Outro cuidado importante é evitar flectir (dobrar) o joelho ao máximo, de modo súbito e com o peso corporal sobreposto, ou seja, agachamentos máximos e rápidos. Do mesmo modo, deve-se evitar extensões súbitas do joelho, travando-o (esticar até o final), ou seja, travar o joelho no acto de retornar de um agachamento ou leg press ou ainda quando terminar o movimento na cadeira extensora, atingindo a extensão máxima. Estes dois procedimentos podem "beliscar" os meniscos entre os dois ossos, lesando-os parcialmente. Realizar alongamentos periodicamente, além dos exercícios localizados de manutenção, também ajuda na preservação dos meniscos, pois tornam os músculos mais funcionais e aptos para a protecção articular, evitando um movimento anómalo do joelho por falta de coordenação.

 

Outra estrutura que possui grande importância no joelho é a patela, que antigamente era chamada de rótula. Este pequeno osso situado na parte da frente do joelho tem um papel fundamental na força de nosso quadríceps (músculo da parte da frente da coxa). Ela funciona com apoio para a alavanca que o tendão do quadríceps exerce sobre o joelho no movimento de estender a perna ou de travar um agachamento. Deste modo pode-se compreender porque as pessoas que apresentam problemas na patela não conseguem descer rampas ou escadas sem sentir dor, nem realizar exercícios na cadeira extensora.

 

A patela possui a cartilagem mais espessa do corpo humano, exactamente devido à solicitação intensa a qual é submetida no dia-a-dia. Portanto a preservação desta cartilagem é fundamental para quem pretende praticar desportos por muitos anos.

 

Isso pode ser feito mantendo-se uma boa relação de contacto da patela no fémur com o qual ela se articula, (pressão retro-patelar). Os encurtamentos musculares, por exemplo, são responsáveis pelo aumento da pressão retro-patelar e irão ocasionar o aumento do atrito na cartilagem articular, levando a uma degeneração precoce.

 

Outro factor de protecção da patela é a integridade do quadríceps, principalmente da sua porção mais próxima do joelho que conhecemos como vasto interno (aquela "almofada" de músculo do lado interno do joelho que os jogadores de futebol têm bem desenvolvida). O vasto interno é o grande responsável pelo alinhamento dinâmico da patela no fémur e sua disfunção prejudica o mesmo, levando a um desgaste desequilibrado da cartilagem articular.

 

Finalmente, o controle do peso corporal também está relacionado com a pressão retro-patelar. Quando subimos uma escada, por exemplo, a pressão retro-patelar é aumentada para cerca de quatro vezes o valor do peso corporal. Numa corrida ela aumenta cerca de seis vezes. Portanto, se o indivíduo aumentar um quilo do seu peso corporal, ele acarreta um aumento de mais quatro quilos na pressão retro-patelar para subir a escada da sua casa e seis quilos para correr.

 

Existem muitos outros detalhes da articulação do joelho que não citamos neste texto para não deixá-lo muito longo e cansativo, mas espero que com os dados que foram passados o leitor tenha aprendido um pouco mais sobre esta articulação tão importante de seu corpo e ter maiores cuidados com ela no dia-a-dia.

 

Por Marcelo Barros

 

 

 

3Fitness.com

 

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