Lutando
contra a dor
Moderada, aguda ou apenas irritante, a dor é uma forma inteligente do
corpo humano alertar-nos quando algo vai mal.
Há dores e dores. As físicas,
as que nos fazem perder a cabeça, as que doem apenas na alma. Mas o
que é, afinal, isso que nos faz sofrer tanto ?
É o processo de defesa do ser humano, um alarme que nos dá o aviso da
eminência de um dano, seja ele físico ou psíquico, tudo começa quando
as terminações nervosas existentes sob a pele e nos músculos recebem
um estímulo nocivo.
Esta mensagem segue pelos nervos sensitivos até chegar à medula, onde
há uma resposta motora. É o reflexo que nos faz retirar o dedo da
tomada ou a mão do fogo. Apartir daí, a mensagem continua o seu
caminho até ao cérebro, onde é processada pelo tálamo e pelo córtex
cerebral, provocando uma alteração bioquímica e formando a consciência
da dor.
O que talvez possa ser melhor entendido se pensarmos que, na gestação
do ser humano, um dos primeiros tecidos a ser formado é justamente o
tubo e a placa neural. Em outras palavras, a medula, o que os
pesquisadores acreditam que aconteça no terceiro mês. Tem início um
esboço primitivo de todo este mecanismo. Mas a consciência da dor só
ocorre quando o córtex cerebral está completo, bem mais tarde.
Onde é que dói mais?
São as regiões do corpo onde existe um maior número de terminações
nervosas que, naturalmente, mostram-se mais sensíveis à dor. Entre
elas estão as pontas dos dedos, as mucosas, como as da boca, e a pele
do mamilo, enquanto as menos sensíveis são as do dorso dos pés e a
parte posterior da coxa. As pontas dos dedos são ricas em terminações
nervosas exactamente para nos permitir discriminar aquilo que tocamos.
A dor pode se tornar persistente e crónica. É quando passa a ser sinal
de doença e perde a sua função de alarme. E ela torna-se crónica por
vários mecanismos. Na dor de cabeça crónica, por exemplo, uma das
origens mais comuns é o abuso de analgésicos. Trata-se de alguém com
uma alteração bioquímica que leva o organismo a produzir uma menor
quantidade de analgésicos naturais.
Diante do excesso de analgésicos, o organismo responde agravando a
dor. O mecanismo parecido com o intestino preguiçoso e o uso de
laxantes, quanto mais se faz uso dos laxantes, mais o intestino deixa
de trabalhar por si mesmo. É o que se chama de tolerância. Nestes
casos, somente a interrupção brusca dos analgésicos — enquanto,
paralelamente, se procura estimular o cérebro a voltar a produzir
analgésicos endógenos — pode resolver. O que se faz então é prescrever
substâncias que optimizem o equilíbrio da bioquímica cerebral.
Dores diferentes, mecanismos diferentes
Mas a dor de cabeça é um tipo bastante específico de dor. As dores
reumáticas, por exemplo, obedecem a um outro mecanismo. Mais
periféricas, elas afectam as articulações e podem até ser mais
brandas, mas permanecem incomodando por períodos longos. São síndromes
dolorosas com abordagens diferentes.
Nestes casos, entretanto, a boa notícia é que, ao contrário da dor de
cabeça, não há alteração bioquímica e, portanto, o organismo não
desenvolve tolerância ao efeito do medicamento. Com isso, o tratamento
pode se estender por anos a fio, com igual eficácia. Pelo contrário,
com uma boa bioquímica, o organismo continua produzindo analgésicos
endógenos, o que ajuda a eliminar a dor.
Diante do mesmo estímulo doloroso, no entanto, as respostas
individuais variam bastante. Enquanto uns fazem um escândalo a uma
simples injecção, outros dão pouca importância até a dores mais
fortes. A leitura e o uso que cada um tem do seu corpo e da dor são
bastante diversos. E, provavelmente, estão relacionados à história
individual de cada um, e as suas experiências.
A dor psicológica e as estratégias contra o sofrimento
Em outras palavras, a dor física também tem um sentido psíquico. E
este sentido pode relativizá-la ou ampliá-la. Basta pensar no efeito
psicológico de um certo contexto, que intensifica a dor de alguém sob
tortura. A expectativa da dor é suficiente para fazer aumentar a
ansiedade e, em consequência, multiplicar a própria percepção da dor
que se vai sentir. Mais ou menos como aquela situação da cadeira do
dentista.
Por outro lado, quem já tenha passado por experiências anteriores
muito dolorosas pode minimizar as dores que venha a sofrer depois. Uma
experiência feita com crianças de uma escola constatou que aquelas que
tinha passado por um berço de alto risco, ou por intervenções
cirúrgicas ainda nos primeiros meses de vida, tinham desenvolvido um
sistema de protecção mais elaborado do que as outras. Quando lhes era
pedido que fizessem uma figura humana sob a chuva, por exemplo, elas
tratavam de desenhar guarda-chuvas maiores, esquemas de protecção mais
eficazes, deixando tudo isso bastante evidente.
A questão puramente psicológica também funciona. E o efeito placebo é
um bom exemplo disso. Saber que se está a tomar um potente medicamento
para fazer passar a dor, costuma aliviar o mal-estar de muitos
pacientes. Mesmo aqueles que estejam a tomar simplesmente um placebo,
pílula inócua de açúcar. Segundo os especialistas, todos estes
factores têm influência sobre os impulsos nervosos que chegam e
circulam pelo cérebro. O que também abre outras perspectivas para
combater a dor.
Biofeedback, hipnose e relaxamento são técnicas que conseguem, em vários casos, amenizar dores diversas, sobretudo as crónicas.
Por Marcelo Barros.
Fonte: (Journal of Trace Elements in Medicine and Biology) Set. 2004
3Fitness.com
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