Diferenças
entre as acções musculares concêntrica e excêntrica
A actividade locomotora é a combinação de diferentes formas de acções
musculares, que também podem ser encontradas de forma isolada.
Na forma isolada temos três tipos de acções musculares diferentes:
isométricas, concêntricas e excêntricas. Na forma combinada temos, por
exemplo, um ciclo alongamento-contracção, onde uma acção excêntrica
precede imediatamente uma acção concêntrica, facto facilmente notado
quando analisamos passos de uma caminhada ou a manipulação de algum
objecto que está próximo.
Entretanto existem várias diferenças entre acções musculares
concêntricas e excêntricas, que repercutem de maneira diferenciada no
organismo humano, facto que deve servir de fonte para a manipulação de
variáveis durante a prescrição de actividades físicas para a população
em geral, ou para a planificação do treino de atletas.
Acções musculares concêntricas ocorrem quando há o encurtamento de um
músculo envolvido em determinado movimento (quando erguemos um peso).
Acções musculares excêntricas ocorrem quando os músculos envolvidos no
movimento alongam-se de forma controlada (quando baixamos um peso).
Ocorre uma acção muscular isométrica quando um músculo é activado e
desenvolve força sem causar movimento numa articulação (1,2). Este
modo de acção é à base da manutenção postural (3).
Apesar de definirmos aqui acções musculares isométricas, neste texto
iremos tratar apenas a respeito das diferenças apresentadas entre
acções musculares concêntricas e excêntricas.
Fisiologia neuromuscular
O tipo de acção muscular empregada oferece diferentes estímulos ao
sistema neuro muscular. Estudos verificaram através de menor acção
eletromiográfica, que acções excêntricas activam um menor número de
fibras musculares (4).
Menos unidades motoras recrutadas indicam que
mais força por unidade de músculo é produzida, e menos estimulação
neural é necessária para a realização do movimento, mostrando uma
eficiência neuromuscular maior das acções excêntricas (4, 5). É
sugerido que as adaptações neurais se dão de forma mais rápida quando
se dá ênfase na fase excêntrica (6).
Menos unidades motoras recrutadas, usando o
mesmo limiar de despolarização pode ser o factor responsável por este
fenómeno (7). Este conhecimento pode ser usado, por exemplo, para a
manipulação de variáveis durante a reabilitação de um membro
lesionado.
Apesar desta maior eficiência neuro muscular, o treino com ênfase
excêntrica não levará necessariamente a um maior ganho em força, pois
a adaptação neuro muscular se dá de forma específica e diferenciada
para ambas acções musculares (4).
Estudos falharam em mostrar superioridade para
o treino com ênfase excêntrica em aumento de força superior ao treino
tradicional (concêntrico-excêntrico) em sujeitos treinados. Grupos que
treinaram de forma tradicional ou com ênfase na fase excêntrica, não
mostraram diferença significativa em aumento de força entre grupos
para os flexores do cotovelo, além de não apresentarem aumento de
força isométrica também (6)
.
Já Dudley at al mostraram que maior ganho de força dinâmico ocorre
quanto são usadas acções concêntrico-excêntricas em um programa de
treino resistido (4).
Estes factos mostram uma grande especificidade nos ganhos de força
para cada tipo de acção muscular treinada como forma de resultado em
se aprender a recrutar músculos para executar um tipo determinado de
acção (1).
Regimes de treino que não oferecem um tipo de
acção muscular podem não preparar este indivíduo para cargas
específicas que ocorrem durante as actividades desportivas ou mesmo as
actividades diárias (6).
Para as acções concêntricas temos então um maior recrutamento de
unidades motoras, induzidas por uma maior activação simpática, o que
acarreta em uma demanda energética maior (5).
Bioquímica
Como já foi dito, um pequeno número de fibras é activado para gerar
força excêntrica em comparação à geração concêntrica. Alta carga em um
número relativamente pequeno de fibras pode causar rupturas,
acompanhadas de uma resposta inflamatória, com inchaço e dor.
Acções excêntricas repetidas podem causar danos ao músculo induzindo
ulcerações temporárias, causando demora na recuperação e prejuízo
transitório na produção de tensão, o que geralmente se manifesta
depois de seis ou doze horas após a prática de exercícios e persiste
por vários dias (8,3).
A tensão gerada pelo alongamento, ou pela
destruição de elementos passíveis, pode explicar o alto potencial para
danos musculares das acções excêntricas (3).
Estas fibras são facilmente identificadas pelo alto nível de enzimas
intramusculares encontradas no sangue durante os dias de exercício
excêntrico e pela evidência histológica da ruptura de sarcómeros e do
fluxo da linha Z dos músculos afectados.
Apesar do acima exposto, o pH não se mostrou diferente entre os modos
de contracção muscular (3).
Acções concêntricas induzem ao maior esforço metabólico dos três modos
de acções musculares, associadas à activação do metabolismo aeróbio,
ocorrendo maior frequência de hidrólise de ATP, contra uma menor
síntese de ATP acções excêntricas (3).
Hormonas
Os hormonas, principalmente GH, testosterona e cortisol, são sensíveis
ao stress do treino resistido e exercem vários papéis no estado
anabólico e catabólico de diferentes tecidos (como o muscular),
incluindo se a estimulação a síntese protéica. A magnitude com que
isto ocorre, pode ser afectada pelo volume e intensidade do treino,
agrupamentos musculares envolvidos, selecção de exercícios, pelo
tamanho do período de descanso entre as sessões e pelo tipo de acção
muscular (4,5).
Um aumento agudo de GH foi significativamente maior seguido por um
protocolo de treino concêntrico que num protocolo de treino
excêntrico, tendo permanecido elevado mesmo após quinze minutos. O
acúmulo de iões de hidrogénio produzido pelo aumento de acidose pode
ser um dos primeiros factores influenciadores pela liberação de GH
durante o treino resistido. Concentrações maiores de lactato foram
encontradas em um protocolo de treino concêntrico (4).
A diferença no recrutamento de unidades motoras pode causar um stress
neural diferente, que pode também afectar a magnitude da secreção de
GH (4).
O GH esta envolvido no controle homeostático de variáveis dinâmicas,
como as gorduras e as proteínas (4). Ainda assim, a administração de
GH não se mostrou muito eficiente no aumento de tamanho ou de força
muscular, apesar de hipoteticamente poder colaborar no processo de
hipertrofia . A testosterona mostrou-se muito mais potente na
estimulação do processo de hipertrofia (5).
Não foram encontradas diferenças significativas nos níveis de
testosterona entre acções excêntricas e concêntricas, com cargas
constantes (5), apesar de ser notado um pequeno aumento na
testosterona total em relação aos níveis de repouso após um protocolo
de treino concêntrico isocinético. Não foi encontrada diferença nos
níveis de cortisol (4,5).
Considerações finais
Fica assim evidente o quão meticuloso pode ser o treino desportivo. O
controlo de variáveis aparentemente simples como as aqui expostas,
podem levar a repercussões fisiológica, bioquímicas e hormonais bem
distintas.
Não cabe dentro de uma abordagem sistémica o controle de quaisquer
variáveis, sem uma fundamentação que dê suporte ao acto. As diferenças
aqui colocadas podem então facilitar ou mesmo nortear prescrições e
intervenções, sempre na busca de uma maior e melhor qualidade no
conhecimento do todo.
Referências bibliográficas
(1)FLECK, Steven J. e KRAEMER, William J; fundamentos do treino de
força muscular. Ed. Artmed 2002.
(2)ZATSIORSKY, Vladimir M; ciência e prática do treino de força Ed.
Phorte 1999.
(3)RYSCHON, T. W., FOWLER, M. D., WYSONG, R. E., ANTHONY, A. R., and
BALABAN R. S. efficiency of human skeletal muscle in vivo: comparison
of isometric, concentric, and eccentric muscle action. J. appl.
Physiol. 83 (3): 867-874, 1997.
(4)KRAEMER, W. J., DUDLEY, G. A., TESCH, P. A., GORDON, S. E., HATHER,
B. M., VOLEK, J. S., and RATAMESS, N. A.; the influence of muscle
action on the acute
(5)DURAND, Robert J., CASTRACANE, V. Daniel, HOLLANDER, Daniel B.,
TRYNIECKI, James L., BAMMAN, Marcas M., O’NEAL, Sarah, HEBERT, Edward
P., and KRAEMER, Robert R.; hormonal responses from concentric and
eccentric muscle contractions. Medicine
(6)BARSTOW, Ian; BISHOP, Mark; KAMINSKI, Thomas W.; is
enhanced-eccentric resistance and medicine 2003, 2, 62-69.
(7)FARINATTI, Paulo de Tarso V; MONTEIRO Wallace David; fisiologia e
avaliação funcional, ed. Sprint, 2000.
(8)MAUGHAN, Ron; GLEESON, Michael & GREENHAFF, Paul L. bioquímica do
exercício e do treino. Ed. Manole 2000.
