PROTEÍNA
E FUNÇÃO RENAL
Pedro Bastos*
A Nutrição está sujeita a opiniões, muitas vezes infundadas, que por
serem tantas vezes repetidas e defendidas, já se tornaram verdades
quase absolutas. Se há 20 anos atrás a falta de difusão do
conhecimento tornava difícil questionar muitos desses mitos, hoje com
a circulação rápida e barata de informação (p.e. U.S. National Library
of Medicine www.pubmed.org ), é possível fazê-lo.
Um desses mitos é o de que o aumento da ingestão de proteína provoca
problemas renais.
Há mais de 20 anos que se sabe que quando pacientes com patologia
renal aumentam a ingestão de proteína, a sua doença agrava-se1, razão
pela qual a restrição proteica (ingestão de proteína inferior a 0,8
gramas por cada kg de peso) é prática clínica normal nestes pacientes
Assim, muitos médicos e nutricionistas pensam que um consumo elevado
de proteína (como o fazem milhares de atletas por todo o mundo) irá
causar problemas renais, mesmo em pessoas saudáveis. Vejamos o que os
estudos que analisaram esta hipótese em indivíduos sem doença renal
nos dizem:
1. Num estudo de 6 meses realizado na Dinamarca, com 65 indivíduos
obesos (sem doença renal), em que um grupo foi sujeito a uma dieta com
70,4 gramas de proteína por dia e outro a uma dieta com 107,8 gramas,
verificou-se que o grupo que ingeriu mais proteína não sofreu
quaisquer alterações patológicas da função renal.
2. Um ano depois, investigadores belgas verificaram que um consumo
diário de proteína até 2,8 gramas por cada kg de peso corporal não tem
consequências adversas para os rins em atletas3.
3. Mais recentemente, em 2003, Knight e colaboradores analisaram as
alterações na função renal ao fim de 11 anos em 1624 mulheres que
participaram no famoso Nurses’Health Study e verificaram que uma
ingestão elevada de proteína não estava associada a um declínio da
função renal em mulheres sem patologia renal4.
Face ao exposto, faço minhas as palavras de Martin e colaboradores que
fizeram uma revisão da literatura publicada até ao fim de 20045:
“Enquanto que a restrição proteica pode ser apropriada no tratamento
de uma patologia renal, não encontrámos evidências que uma ingestão
elevada de proteína afecte adversamente a função renal em indivíduos
saudáveis.”
Não obstante, existe um limite fisiológico hepático para a síntese de
ureia, que se inicia entre 2,65 a 3,65 gramas de proteína por cada kg
de peso, pelo que não se aconselha uma ingestão proteica superior a
2,5 gramas por cada kg de peso6.
Para finalizar, é importante esclarecer que mesmo em pacientes com
alterações patológicas da função renal, as fontes proteicas parecem
ser tão importantes como a restrição proteica.
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Por exemplo, em 1994, Gross e colaboradores verificaram que a substituição de carne vermelha por peixe e galinha, mantendo dieta normoproteica apresentou o mesmo efeito na taxa de filtração glomerular que uma dieta hipoproteica (0,5 g/kg/d) em Diabéticos tipo 1 normoalbuminúricos com hiperfiltração glomerular7 Mais tarde, em 2002, a mesma equipa de investigação verificou que a substituição de carne vermelha por galinha (dieta com 1,35 gramas diárias de proteína por cada kg de peso corporal -1,35 g/kg/d) em diabéticos tipo 2 com microalbuminúria, conduziu a uma maior redução da taxa de excreção urinária de albumina que dieta hipoproteica (0,62 g/kg/d), o que levou os investigadores a concluir que uma dieta em que a carne vermelha é substituída por galinha representa uma estratégia alternativa ou adicional para o tratamento de diabéticos tipo 2 com microalbuminúria8
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Assim e porque também já havia sido observado que uma ingestão mais
elevada de peixe estava associada a uma menor incidência de
microalbuminúria em pacientes com Diabetes tipo 110 parece ser
razoável recomendar, a quem tem uma doença renal ou está em risco de a
desenvolver, uma dieta normoproteica (0,8-1 g/kg/d), em que a carne
vermelha seja substituída por peixe e/ou galinha, em alternativa a uma
dieta hipoproteica.
Referências (disponíveis em www.pubmed.org ):
1. Brenner BM, Meyer TW, Hostetter TH. Dietary protein intake and the
progressive nature of kidney disease: the role of hemodynamically
mediated glomerular injury in the pathogenesis of progressive
glomerular sclerosis in aging, renal ablation, and intrinsic renal
disease. N Engl J Med. 1982 Sep 9;307(11):652-9
2. Skov AR, Toubro S, Bulow J, Krabbe K, Parving HH, Astrup A. Changes
in renal function during weight loss induced by high vs. low-protein
low-fat diets in overweight subjects. Int J Obes Relat Metab Disord.
1999 Nov;23(11):1,170-7.
3. Poortmans JR, Dellalieux O. Do regular high protein diets have
potential health risks on kidney function in athletes? Int J Sport
Nutr Exerc Metab. 2000 Mar;10(1):28-38.
4. Knight EL, Stampfer MJ, Hankinson SE et al. The impact of protein
intake on renal function decline in women with normal renal function
or mild renal insufficiency. Ann Intern Med 2003;138:460-7.
5. Martin WF, Armstrong LE, Rodriguez NR. Dietary protein intake and
renal function. Nutrition & Metabolism 2005, 2:25
6. Cordain L, Brand Miller J, Eaton SB et al. Plant to animal
subsistence ratios and macronutrient energy estimations in world wide
hunter-gatherer diets. Am J Clin Nutr 2000, 71:682-92
7. Pecis M, de Azevedo MJ, Gross JL. Chicken and fish diet reduces
glomerular hyperfiltration in IDDM patients. Diabetes Care. 1994
Jul;17(7):665-72.
8. Gross JL et al. Effect of a chicken-based diet on renal function
and lipid profile in patients with type 2 diabetes: a randomized
crossover trial. Diabetes Care. 2002 Apr;25(4):645-51.
9. de Mello VD et al. Withdrawal of red meat from the usual diet
reduces albuminuria and improves serum fatty acid profile in type 2
diabetes patients with macroalbuminuria.
Am J Clin Nutr. 2006 May;83(5):1032-8.
10. Möllstein AV, Dahlquist GG, Stattin EL, Rudberg S. Higher intakes
of fish protein are related to a lower risk of microalbuminuria in
young Swedish type 1 diabetic patients. Diabetes Care 2001;24:805–10
*Pedro Bastos é
Mestrando em Nutrição e Dietética pela FUNIBER, em parceria com a
Universidade de León (Espanha)
Aluno da Pós-Graduação em Bioquímica, Medicina Ortomolecular e
Nutrição Clínica Funcional, na Universidade Moderna de Lisboa
(Portugal)
Pós-Graduado em Exercício e Saúde pela ESDRM (Rio Maior, Portugal)
Instrutor de Musculação e Cardiofitness diplomado pelo CEF (Oeiras,
Portugal) e pelo CEFAD (Lisboa, Portugal)
Membro da New York Academy of Sciences
Coordenador do curso de Nutrição do CEF e formador das disciplinas
de Nutrição de vários cursos do CEF
Consultor da “VP Consultoria Nutricional” (Brasil), “GenoSolutions,
“Sporting Clube de Portugal”, “Clube de Saúde dos Olivais”, “Clínica
das Conchas” e “Tavares Wellness Solutions”
Contacto: pmcbastos@gmail.com
