Os
sonhos decifrados
Nos sonhos, o fantástico é natural e as
coisas não precisam de fazer sentido.
No mundo dos acordados, o homem tenta há milénios descobrir um sentido
para os sonhos
Já pensou em visitar um lugar em que as
leis da física valem tanto quanto uma nota de 50 euros ?
Onde você pode beijar uma estrela de cinema segundos antes de sair a
voar, cair e morrer, para levantar-se em seguida e ir para o trabalho
de pijama? Num universo em que a lógica não tem a sua vez, mas tudo
parece fazer sentido - até acordar e não entender nada do que se
passou no momento anterior?
O que me leva a escrever sobre este assunto é o facto de cada vez mais
ouvir de alunos ou amigos meus, as perturbações que têm durante o
sono, as interrogações, as aflições, que culmina no baralhar de uma
mente que por si só... já não é assim tão lúcida. Porque eu, eles, ou
você e a humanidade inteira são habitués desse lugar mental - o
domínio dos sonhos. Supondo que uma pessoa passe um terço do dia
dormindo e ocupe um quinto do tempo de repouso sonhando, ela passa um
fim de semana por mês totalmente desligada do mundo consciente. Nma
existência de 75 anos, os sonhos correspondem a nada menos que 5 anos
completos.
Apesar de termos tanta familiaridade com os sonhos, poucos fenómenos
são tão intrigantes quanto eles. Os seus mistérios atormentam o homem
desde sempre - e ainda não há nenhuma resposta 100% convincente para
esses enigmas. Entre os antigos, os sonhos costumavam ser
interpretados como mensagens de outros mundos. Com a psicanálise,
ganharam destaque como o caminho mais privilegiado para decifrar o
inconsciente. Os avanços científicos mais recentes são promissores:
graças ao desenvolvimento das neurociências, já foram desvendados
alguns mecanismos cerebrais e funções da experiência onírica. Sabe-se,
por exemplo, que os devaneios nocturnos ajudam, e muito, a consolidar
memórias.
Agora vai acompanhar a trajectória do pensamento humano no maravilhoso
mundo dos sonhos. Por enquanto, fique de olhos bem abertos e aproveite
a viagem.
Ponte para o divino
Em 332 a.C., Alexandre, o Grande, tentava invadir a cidade fenícia de
Tiro (no actual Líbano). Apesar da supremacia de seu exército, a
localização da cidade - que ficava numa ilha a quase 1 quilómetro da
costa - atrapalhou os planos do conquistador. Depois de 7 meses de
cerco, os soldados estavam sem ânimo e o próprio Alexandre começou a
pensar na possibilidade de desistir da empreitada. Antes de bater em
retirada, no entanto, ele teve um sonho enigmático com um sátiro a
dançar sobre o seu escudo. A imagem da figura mitológica ficou
martelando tanto na sua cabeça no dia seguinte que ele resolveu se
aconselhar com um guia espiritual que acompanhava suas tropas. Depois
de ouvir o relato do sonho, o adivinho o interpretou como um sinal de
que o cerco deveria ser ainda mais agressivo, pois a cidade seria
conquistada em breve. Ele chegou a essa conclusão após desmembrar a
palavra sátiro em duas partes - o resultado foi a expressão sa Turos,
que pode ser traduzida do grego como "Tiro é sua". Alexandre acreditou
no guru, fechou o cerco e, dito e feito, invadiu Tiro.

Esse episódio foi descrito pelo grego Artemidoro de Daldis na obra
Oneirocrítica, escrita no século 2 da era cristã, e reproduzido por
Sigmund Freud no livro A Interpretação dos Sonhos. Artemidoro e
Ambrósio Teodósio Macróbio - pensador latino que viveu entre os
séculos 4 e 5 - colheram relatos de pessoas e, após analisar esse
material, dividiram os sonhos em duas categorias principais. Na
primeira se encaixavam aqueles que reproduziam factos do quotidiano do
sonhador. Na segunda entravam aqueles que traziam alguma mensagem
sobre o futuro, que podia se apresentar de forma directa - quando o
próprio acontecimento é imaginado - ou simbólica, como o sonho de
Alexandre, que precisou ser decifrado para revelar seu conteúdo
oculto.
Artemidoro e Macróbio são considerados os principais pesquisadores
sobre os sonhos na Antiguidade, mas não foram os únicos. Aristóteles,
que viveu no século 4 a.C., já falava sobre o assunto na sua obra.
"Ele sabia que o sonho converte informações sem muita importância
percebidas durante o sono em sensações fortes", escreveu Freud. Uma
pessoa com febre, por exemplo, pode sonhar que está sendo queimada
viva numa fogueira. O filósofo também teve outra sacada genial, que
seria mais tarde confirmada pelas neurociências: segundo ele, os
movimentos corporais que ocorrem durante algumas fases do sono têm
relação directa com os sonhos.
Os estudos de Artemidoro, Macróbio e Aristóteles revelam uma
preocupação pouco comum entre nossos antepassados. O sonho não era
visto como uma produção da mente humana, mas como um fenómeno
sobrenatural. A mitologia dos próprios gregos, por exemplo, delega a
responsabilidade dos sonhos aos filhos de Hypnos, deus do sono, que
por sua vez era irmão gémeo de Tanatos, deus da morte. Entre os filhos
de Hypnos estavam o célebre Morfeu, que trazia os sonhos dos homens;
Icelus, que provocava os sonhos nos animais; e Phantasus, que
despertava sonhos nas coisas inanimadas. Outro deus relacionado aos
sonhos era Esculápio, cultivado em templos aonde as pessoas doentes
iam para receber a cura divina durante os sonhos.
Outras crenças, tanto antigas quanto actuais, atribuem importância ao
conteúdo dos sonhos. "A mitologia em que o sonho tem um papel mais
fundamental é a das culturas xamânicas", diz Malena Contrera,
especialista em mitologia e professora da Universidade Paulista. Entre
algumas, não há distinção entre o sonho e a realidade. No livro O Ramo
de Ouro, o antropólogo britânico James George Frazer cita casos como o
da tribo macusi, da Guiana: "Um índio doente sonhou que o seu patrão o
havia forçado a passar com sua canoa por uma série de cataratas e,
quando acordou, reclamou que o mestre não teve piedade ao obrigar um
inválido a sair e pegar no batente durante a noite", escreveu Frazer.
O autor cita ainda o exemplo dos dyak, indígenas que vivem na ilha de
Bornéu (Indonésia). Eles acreditam que o espírito pode se desgarrar do
corpo durante o sonho: "Quando um dyak sonha que caiu na água, ele é
enviado a um feiticeiro para que este pesque o espírito de volta".
Também era comum associar os sonhos a mensagens divinas. Em episódios
da Bíblia, por exemplo, vários personagens recebem recados de Deus
durante os sonhos. No capítulo 41 do Gênesis, José, capturado como
escravo no Egipto, se apresenta ao faraó como uma espécie de
intermediário de Deus. Ele decifra um sonho do soberano, no qual 7
vacas magras devoram 7 vacas gordas. Para José, trata-se de uma
mensagem clara: os egípcios deveriam se preparar, pois depois de 7
anos de abundância viriam outros tantos de fome. Só a passagem de
todos os anos de escassez bastou para que o hebreu fosse levado a
sério - e finalmente nomeado vice-rei do Egipto. Pouquíssimo tempo, se
comparado à demora da humanidade para adoptar uma postura menos
mística em relação ao estudo dos sonhos.
De Darwin à psicanálise
As interpretações sobrenaturais dos sonhos perderam força a partir do
século 19, quando a ciência começou a se ocupar mais atentamente da
questão. Um dos primeiros indícios dessa transformação está no livro A
Descendência do Homem, de Charles Darwin, publicado em 1871. Nessa
obra, o autor do célebre A Origem das Espécies, de 1859, faz algumas
observações sobre a nossa capacidade de sonhar e sugere que não
estamos sozinhos no reino de Morfeu. "Cachorros, gatos, cavalos e
provavelmente todos os animais superiores, até mesmo as aves, têm
sonhos vívidos, o que é mostrado por seus movimentos e pelos sons que
emitem. Por isso devemos admitir que eles têm algum poder de
imaginação", escreveu. Ele acertou na mosca - hoje os cientistas sabem
que praticamente todos os mamíferos e aves têm a capacidade de sonhar.
Darwin foi contemporâneo de pesquisadores como a psicóloga americana
Mary Calkins. No artigo Estatística dos Sonhos, publicado em 1893, ela
apresenta um método usado até hoje: durante o sono, quando seus
pacientes começavam a mover algumas partes do corpo, el
a
os acordava e pedia que relatassem o que estavam sonhando. Calkins
descobriu, entre outras coisas, que a maioria dos sonhos acontecia na
segunda metade do período de sono e que 89% dos relatos tinham relação
directa com os eventos do dia anterior. Houve vários outros estudos
sobre os sonhos na segunda metade do século 19, mas eles não fizeram
muito sucesso. "Descobertas importantes como essa foram enterradas
pelo impacto da psicanálise", escreveram os neurologistas César
Timo-Iaria - que morreu no ano passado ".
Depois de Freud, de facto, nada seria como antes. O criador da
psicanálise inaugurou um novo campo do saber, distinto da medicina, ao
publicar A Interpretação dos Sonhos, em 1900 - a data correcta é 1899,
mas ele pediu ao editor que alterasse o ano para simbolizar sua
pesquisa como o marco de um novo século. Depois de elaborar sua teoria
sobre o inconsciente, Freud apontou os sonhos como uma "via régia" ou
"estrada real" para o conteúdo oculto em nossas mentes. À noite,
depois de fechar os olhos, deixamos aflorar os desejos que reprimimos
quando estamos acordados. Mas isso não acontece de forma directa -
quem deseja cometer um crime, por exemplo, não adopta necessariamente
um comportamento ilegal no sonho.
Freud atribui ao sonho um carácter simbólico, formado a partir de dois
mecanismos básicos: a condensação e o deslocamento, que servem para
distorcer o desejo reprimido - ou recalque, como preferem os
psicanalistas - e driblar a censura que nos impomos, no sono ou na
vigília. A condensação é um processo de síntese (um sonho relatado em
um parágrafo pode render muitas páginas de interpretação) e o
deslocamento transfere a importância do tema em destaque para outro
sem relevância (um marido infiel pode não sonhar com a amante, mas com
as cortinas do quarto de hotel onde se encontram).
Nas décadas seguintes, a psicanálise foi debatida, modificada e
ampliada por vários pesquisadores. Um deles foi Carl Gustav Jung,
acolhido inicialmente por Freud como seu discípulo, mas que depois se
afastou do mestre e criou sua própria teoria. Inclusive no que diz
respeito ao sonhos. "Para Jung, o sonho é um mecanismo compensatório
da psique, e a realização de desejos reprimidos é apenas um aspecto
dessa compensação", diz a psicóloga Marion Gallbach, da Sociedade
Brasileira de Psicologia Analítica. Ela dá um exemplo para ilustrar o
conceito: "Pessoas na meia-idade que insistem em cultivar a juventude
tendem a sonhar com a morte ou com símbolos relacionados ao
envelhecimento, como a descida de uma montanha". Só assim elas
entendem e começam a perceber que a vida, um dia, vai acabar. Outro
conceito difundido por Jung foi o de inconsciente colectivo, que
contém representações compartilhadas por todos nós - os arquétipos. "O
arquétipo materno, por exemplo, é uma predisposição inata para
reconhecer a figura da mãe, mesmo quando nascemos e não sabemos o que
é uma mãe", diz Marion. E o que os arquétipos têm a ver com os sonhos?
Para Jung, eles ajudam a explicar alguns fenómenos que, vistos de
outro ângulo, podem ser considerados sobrenaturais. Um deles é a
sincronicidade, ou a ocorrência de sonhos semelhantes em pessoas sem
nenhum vínculo. Como já nascemos com várias imagens moldadas em nossas
mentes, é razoável imaginar que muitas delas podem se expressar ao
mesmo tempo em indivíduos diferentes.
A teoria psicanalítica teve o mérito de desvendar os mecanismos e
funções do sonho para, a partir desse conhecimento, permitir o
tratamento de distúrbios de comportamento, certo? Não, nem todos
pensam assim. "Não acredito na psicanálise como técnica de terapia. Os
sonhos revelam alguns conteúdos da vida do indivíduo, mas o facto de
relatá-los não cura ninguém de nada", diz Ângela do Valle, da USP. O
psiquiatra Robert Stickgold, da Universidade Harvard, nos EUA, pega
mais pesado: "A psicanálise parte de premissas injustificadas e
equivocadas, como a de que os sonhos reflectem desejos reprimidos. Não
há nenhuma evidência real de que isso esteja correcto". Os defensores
da psicanálise, é claro, discordam. Mas o fato é que, 14 anos após a
morte de Freud, em 1939, os estudos da neurologia deitaram um balde de
água fria na interpretação subjectiva dos sonhos.
